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Amar muito e Desejar pouco

  • Foto do escritor: Ana Pimentel
    Ana Pimentel
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

"Amo-o muito, mas já não o desejo como antes."

Amar muito e Desejar pouco é uma queixa que se repete nas sessões de terapia de casal com uma regularidade quase desconcertante. Chega embrulhada em culpa, em confusão, às vezes em vergonha.



Durante anos, esta queixa foi tratada como sinal de alarme, prova de que algo estava errado, de que o amor estava a desgastar-se, de que talvez a relação tivesse chegado ao fim. Esther Perel, psicoterapeuta belga radicada em Nova Iorque e uma das vozes mais influentes sobre intimidade e desejo no mundo contemporâneo, veio propor uma leitura completamente diferente: e se esta tensão não fosse um sinal de falha, mas a natureza humana a funcionar exatamente como foi desenhada?




Dois mundos que se atraem — e se contradizem


Para Perel, amor e desejo não são a mesma coisa. São forças com lógicas opostas.

O amor quer aproximar. Quer fusão, pertença, segurança. Quer dizer "tu és meu" e "eu sou teu", eliminar a distância, criar um nós tão sólido que nada de fora possa ameaçá-lo. É uma força centrípeta: tudo puxa para dentro, para o centro, para a unidade.


O desejo funciona ao contrário. O desejo precisa de distância para ter para onde viajar. Precisa de ver o outro como um ser separado, com vida própria, com mistério, alguém que não conhecemos completamente, alguém que nos pode ainda surpreender. É uma força centrífuga: precisa de espaço, de alteridade, de movimento.


"O amor quer possuir, aproximar, eliminar a distância", diz Perel. "O desejo prospera nessa mesma distância."

O problema não é que o amor e o desejo sejam incompatíveis. É que as condições que alimentam um tendem a enfraquecer o outro.



A descoberta que perturbou tudo


No trabalho clínico com casais ao longo de décadas, Perel identificou um padrão que contraria toda a intuição popular: os casais com relações mais seguras, mais estáveis, mais amorosas eram frequentemente os que reportavam menor desejo sexual.

Não amavam menos. Na maioria dos casos, amavam profundamente. Mas quanto mais tinham construído a sua segurança, a confiança, a rotina, a cumplicidade, a partilha de tudo - menos espaço existia para o desejo operar.


A razão é simples, embora incómoda: a segurança emocional e o desejo erótico precisam de condições diferentes para existir.

A segurança pede previsibilidade. O desejo pede surpresa. A segurança pede fusão. O desejo pede separação. A segurança pede pertença total. O desejo pede mistério.

Quando uma relação atinge um nível elevado de fusão, quando os dois se tornam um, quando se conhecem completamente, quando cada pensamento é partilhado e cada momento é dividido, o desejo fica sem oxigénio. Não porque o amor tenha acabado, mas porque o espaço que o desejo precisa para respirar foi preenchido pela intimidade.



O erro que os casais cometem quando o desejo diminui


A resposta intuitiva à diminuição do desejo é quase sempre a mesma: mais. Mais tempo juntos. Mais conversas sobre a relação. Mais partilha, mais proximidade, mais fusão.

É compreensível. Quando sentimos que algo está a afastar-nos, o instinto é aproximarmo-nos ainda mais. Mas neste caso, o remédio agrava o problema.

O desejo precisa de alguma distância para que haja espaço de aproximação. Sem separação, não há movimento. Sem ausência, não há saudade. Sem alteridade, sem que o outro seja genuinamente outro, não há desejo de o alcançar.

Casais que passam a fazer tudo juntos, que partilham cada detalhe da vida quotidiana, que se tornam o melhor amigo, o colega de equipa, o gestor doméstico um do outro, podem construir uma relação extraordinariamente segura e profundamente dessexualizada. Não porque se deixem de querer, mas porque eliminaram a tensão produtiva que o desejo precisa.



O que os casais com desejo vivo fazem de diferente


Perel passou décadas a estudar casais que conseguiam manter o desejo aceso ao longo do tempo, e o que encontrou não foi sorte, nem compatibilidade especial, nem sequer grande frequência de sexo. Encontrou padrões de comportamento deliberados.


Preservam vidas individuais. Têm interesses próprios, amigos que não partilham, tempo a sós que não precisam de justificar. Não porque se afastem, mas porque mantêm a sua identidade como seres separados dentro da relação.


Veem o outro com olhos de fora. Um dos momentos mais poderosos de reativação do desejo, nas palavras de Perel, é ver o parceiro através dos olhos dos outros, num jantar, numa apresentação, numa conversa com amigos, e redescobrir o que o torna único. A admiração renovada começa, muitas vezes, no olhar dos outros.


Deixam-no ser apaixonado por algo que não inclui o par. Ver o parceiro absorto no seu trabalho, na sua arte, na sua conversa, totalmente ele próprio, sem precisar de nós, pode ser extraordinariamente erótico. A autonomia é, contra toda a intuição, um afrodisíaco.


Permitem a saudade. Estar separados tempo suficiente para sentir a falta, e o prazer genuíno do reencontro, é uma das estratégias mais subestimadas de manutenção do desejo.


Mantêm-se surpreendidos. Descobrir uma dimensão do parceiro que não se conhecia, ser surpreendidos por um gesto inesperado, sair juntos da rotina, não porque o quotidiano seja mau, mas porque o desejo precisa ocasionalmente de ser sacudido.



O paradoxo que vale a pena abraçar


Perel não propõe que os casais abandonem a segurança em nome do desejo. Propõe algo mais subtil e mais difícil: que aprendam a viver com a tensão entre os dois.

A segurança é inestimável. A confiança, a cumplicidade, o sentido de pertença são o solo onde o amor cresce. Mas quando a segurança se torna fusão total, quando o outro deixa de ser um ser separado para se tornar uma extensão de nós, a relação ganha em estabilidade o que perde em vitalidade erótica.

A arte está em ser porto seguro e aventura ao mesmo tempo, em construir uma relação onde o outro se sente suficientemente seguro para ser vulnerável e suficientemente separado para ser desejado.

"O erotismo doméstico é uma conquista, não um acidente." E os casais que o conseguem não são mais sortudos. São mais deliberados.



Uma última coisa


Se reconhece esta tensão na sua relação, se ama profundamente mas o desejo parece ter diminuído, isso não é necessariamente sinal de que algo está errado. Pode ser sinal de que construiu uma relação muito segura. E de que, agora, vale a pena aprender a criar espaço dentro dela.

Não para o outro. Para o desejo ter para onde ir.


Baseado na obra de Esther Perel, nomeadamente "Mating in Captivity" (2006) e "The State of Affairs" (2017).

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